Os novos donos de Portugal
- 2016-11-15 16:28:31
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O investimento chinês entrou em força em Portugal em 2011 e foi um dos principais beneficiários da onda de privatizações do período de intervenção pelo Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu. Em “Negócios da China”, que será lançado em Lisboa dia 21, as jornalistas Anabela Campos e Isabel Vicente explicam como ocorreram os processos de alienação dos ativos mais valiosos do país, hoje grande parte controlados por empresas chinesas, privadas e estatais. E lançam a questão: Qual será o futuro das grandes empresas portuguesas?

 

- O que mudou nas grandes empresas portuguesas nas quais entrou capital chinês?

Anabela Campos – É preciso esperar algum tempo para perceber qual é o impacto deste investimento nas empresas portuguesas. Até agora não é muito visível porque eles mantiveram uma certa continuidade, mantiveram presidentes – na EDP, por exemplo. Na REN mudaram, mas não acho que tenham sido os chineses a querer mudar circunstâncias. Na Luz Saúde mantiveram, na Fidelidade mantiveram.

Isabel Vicente – No BCP, vão entrar para o capital e terão direito a dois executivos, mas para já é o mandato do presidente executivo que vai continuar. É um bocadinho a maneira de eles entrarem. Têm de ganhar a confiança do outro lado e depois mantêm as pessoas que os ajudaram a entrar.

Anabela Campos – Não têm avançado com despedimentos, por exemplo, Mantêm uma certa tranquilidade. Agora, o que percebemos também, mas não é muito visível, é que na Luz Saúde já começaram a substituir algum material por material comprado na China. Mas é uma coisa que está a começar lentamente.

 

- O investimento chinês foi melhor recebido em Portugal do que noutros países europeus?

Anabela Campos – Há vários países europeus em que estão a tentar entrar em certos sectores e não estão conseguir. Para além disso, compraram empresas que têm rendas garantidas, como a EDP. Com a EDP, entraram também no Brasil e nos Estados Unidos – haveria mais barreiras de outra maneira. Estão também a entrar agora na alta finança. Não é que os nossos bancos sejam interessantes – não são – mas é uma maneira de entrarem no sector financeiro europeu, de começarem a ter contactos com o BCE [Banco Central Europeu].

Isabel Vicente – O BCP tem a Polónia ainda. É uma forma de ganharem a confiança. Os astros conjugaram-se. Também já tínhamos outro tipo de investimento cá, como o angolano, que tanto eu como a Anabela achamos que pode vir a ser substituído pelo chinês.

 

- Apesar de Portugal acolher o investimento chinês sem criar obstáculos, também se sente que há da parte de alguns sectores apreensão? Qual é o aspecto mais preocupante?

Isabel Vicente – Não sabemos.

Anabela Campos – Na verdade, ainda não começámos a refletir muito seriamente sobre isso - até agora, o país estava pressionado para arranjar dinheiro. Por um lado, os bancos estavam muito pressionados para venderem participações que tinham, a que a Troika obrigava, e depois o país estava obrigado a arranjar dinheiro para pagar a dívida. Ou seja, só agora – e nós até gostávamos de pressionar para que essa questão se viesse a colocar em cima da mesa – é que se está a pensar. Estamos a vender as nossas empresas a estatais de um país que na verdade é uma ditadura, que não é muito transparente, que tem regras e códigos diferentes. Não há uma hostilidade especial em relação aos chineses – não houve até agora e não tem de haver –, mas há questões que se levantam e que temos de equacionar melhor. Também tem a ver com esta ambição da China querer ser outra vez um grande império dominante, e querer dominar também um bocadinho o Ocidente.

 

- Houve um momento das privatizações, de pressa em realizar dinheiro, vendendo os ativos. Agora está-se ou não se está na mesma emergência?

Anabela Campos – Nós não temos mais ativos para vender. Parece-nos que a visita do António Costa à China foi significativa. Foi recebido pelo Presidente e pelo primeiro-ministro. Isso também é um sinal de que a China está interessada em construir laços fortes e que o governo não está totalmente passivo.

Isabel Vicente – É outro governo, é outra altura, mas há um convite de Portugal.

 

- Dentro da União Europeia tem havido declarações no sentido de exigir mais reciprocidade e mais acesso ao mercado chinês. Portugal não coloca, e porque se calhar não tem condições de colocar, essa questão. Mas deve ter uma atitude diferente do resto dos países?

Isabel Vicente – Sempre tivemos. Temos capital angolano em muitas empresas e há muitos anos, quando o resto dos países europeus não tem. Nós vemos agora a América a colocar imensos entraves ao investimento angolano e à parte de haver pessoas expostas politicamente - é tudo muito escrutinado. Não é a primeira onda de entrada de capital estrangeiro em Portugal. Já cá estão o espanhol, o angolano, o francês. A surpresa da investida chinesa – quase silenciosa, mas eficaz e em grande – é que daqui para a frente, para este tipo de investimento e para outros, devemos olhar melhor. Não sabendo qual é o impacto de estarem em grandes empresas o Estado chinês ou o Estado angolano, de repente não temos mão nas melhores empresas do nosso país, que nos levam luz, água e que formam os preços das empresas que têm de produzir. É o que está subjacente a este trabalhar de dados, de tentar perceber o que isto vai dar, mas mais deixar um alerta para se refletir no que se fez até aqui e daqui para a frente estar mais alertados.

Anabela Campos – A questão da reciprocidade não se coloca muito para nós porque não temos empresas grandes para investir na China. No caso da Alemanha, há uma relação de forças que connosco não há. Nós queremos que os chineses abram o mercado deles para os nossos vinhos, para os nossos produtos alimentares. A reciprocidade para nós seria mais no sentido de abrir o mercado para os nossos produtos, sem barreiras – porque ainda há algumas barreiras. É uma discussão que se está a colocar na Europa e a Alemanha claramente já colocou essa discussão em cima da mesa. Os franceses provavelmente vão fazer o mesmo. Mas, infelizmente, nós não temos empresas que queiram entrar na China – a não ser empresas tecnológicas, pequenos nichos.

 

- A China está hoje ligada ao futuro de sectores importantes da economia portuguesa. É preciso conhecê-la melhor?

Anabela Campos – Sim, e talvez ainda não estejamos a fazer isso. Agora, o que talvez seja inteligente fazer é tirar partido desta relação que se foi construindo, e que até pode ser positiva para Portugal. Uma coisa é certa: não há nenhum país do mundo ocidental em que estejam na energia, banca e seguros, na saúde, nos transportes aéreos, no imobiliário, no turismo, e agora nos media. Não há nenhum país ocidental onde os chineses estejam nestes tabuleiros todos. São poderosos, estão cheios de dinheiro ainda para investir, e estão com ambição. Talvez seja hoje o país mais ambicioso do mundo em termos de expansão.

 

- A presença nas grandes empresas portuguesas tem permitido retirar dividendos. E o reinvestimento está a acontecer?

Isabel Vicente – Não sabemos. Há projetos para acrescentar a Luz Saúde, mas arrepiaram um pouco caminho.

Anabela Campos – Ainda não temos dados para responder a essa pergunta. Podemos dizer que a Altice vai desinvestir na PT – completamente, vai -, que a Cimpor foi comprada pelos brasileiros para a desmantelarem, sim. O que é que os chineses vão fazer? Não sabemos.

 

- O processo de internacionalização destas empresas portuguesas, uma questão que colocam no livro, tem continuado?

Isabel Vicente – Já estava a acontecer. As empresas em que eles entraram já estavam lá fora.

Anabela Campos – Vão avançar? Não Vão? Há em Moçambique o exemplo que damos da REN, que iria liderar o investimento na eletrificação do país. Aparentemente, a State Grid já quer ficar com isso. Mas, obviamente, quem vai mandar no processo de internacionalização das nossas empresas vão ser os chineses - e se as nossas empresas estiverem a concorrer com as chinesas, suspeito que ganharão as chinesas.

 

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