O bom senso ruiu
- 2016-11-15 16:29:41
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Não há guru eleitoral que tenha previsto a surpreendente vitória de Trump. O populismo radical, o racismo social, o protecionismo económico pareciam acantonar o candidato republicano numa extrema direita marginal, oferecendo aos democratas o centro moderado, no qual tradicionalmente se decidem as eleições. Pouco popular, e sem grande energia eleitoral, ainda assim Clinton parecia chegar para manter no mainstream a política dita civilizada. O que ninguém previu foi a erupção de um eleitorado branco, de classe média-baixa e com pouca instrução, que protestou nas urnas contra a globalização e o capitalismo democrático, seduzidos por um discurso que se alimenta do descontentamento.

 

Se Trump cumprir o que prometeu em campanha, tudo será provavelmente pior. Não é com muros contra a imigração, o fim dos tratados comerciais ou ameaças nucleares que a economia recupera ou que a riqueza é melhor distribuída. Mas quem votou em Trump está convencido de que o presente não lhes serve e que as soluções tradicionais nunca os vão beneficiar. Ou seja, só lhes resta a mudança radical. É que factos provam, ao longo de décadas, que as economias capitalistas, democráticas e globalizadas criaram riqueza mas distribuiram-na mal. O Produto Interno Bruto cresceu, mas não a distribuição per capita, o que marginalizou grandes faixas da população, aumento das desigualdades sociais e multiplicou bolsas de pobreza, que assim se vingam de um regime no qual já não acreditam.

 

Não está a acontecer só nos Estados Unidos. O sucesso da direita populista na Holanda, Hungria, Polónia, Turquia… mas também em França, onde Marine Le Pen firma um discurso bem mais sofisticado que o de Trump, mostra como engrossam as fileiras radicais de quem se sente excluído do bem estar e traído pela globalização. Encarar a vitória de Trump como uma circunstância esdrúxula, fruto da ignorância norte-americana, é negar a absoluta necessidade de reciclar a democracia representativa e o capitalismo global. A memória do populismo europeu, antes da Segunda Guerra, é trágica o suficiente para se perceber o que urge evitar. Mas, como se prova, não é suficiente.

 

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