Classe média em sanduíche e a harmonia enterrada na casa
- 2016-11-18 17:45:31
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Chui Sai On mostrou-se anteontem seguro na Assembleia, do ponto de vista emocional. Calmo, conciliador, até paternalista - aqui e ali - , leu as respostas que trazia previamente preparadas para todas as perguntas dos deputados sobre as Linhas de Ação Governativa, que apresentara no dia anterior – ver páginas 14 e 18 a 22.

 

Quanto ao conteúdo político, mais generalista, menos convincente, foi curto para livrar o chefe do Executivo do drama de uma classe média que perde qualidade de vida, entalada entre a inflação galopante dos anos boom e o peso das rendas de casa, que “põe em causa a harmonia familiar”, concordaria Chui Sai On.

 

Num formato que está longe de ser um debate, Chan Meng Kam, na pele que frequentemente veste, de protetor dos desfavorecidos, colocou o dedo numa ferida que acabaria por purgar durante toda a sessão: o que vai afinal fazer o Governo para salvar os excluídos do boom económico? Já não apenas “os mais pobres”, mas também uma classe média em extinção, a “sanduíche” que perde horizonte, mobilidade e crença no futuro. Habitação, transportes, saúde e deterioração das condições de vida dos idosos, temas sintetizados por Song Pek Kei, são aqueles em que o resultado da ação governativa é “mais decepcionante” e que mais “fazem com que os cidadãos virem costas ao poder político”. Mas também a “ineficácia” da Administração e a “falta de mecanismos de responsabilização” contribuem para esse divórcio, concluiu a deputada.

 

Chui Sai On reagiu num dos momentos mais fortes de afirmação de um estilo invulgar de liderança, assumindo a “responsabilidade política” pelos “erros” dos seus “colegas” e a necessidade de serem todos “humildes” perante as “críticas dos deputados e a opinião pública”. Caso contrário “estamos a afastarmo-nos da população”, reconheceu. Num contexto diferente, surpreendeu também a resposta de Chui Sai On a Pereira Coutinho, que lembrou os milhares de crimes de que é acusado o ex-procurador, que a julgar pelo Ministério Público terá cometido “quase três por dia”, para perguntar qual é a responsabilidade do Executivo no controlo da adjudicação de bens e serviços. Também nesse caso Chui Sai admitiu falhas, embora de forma menos explícita, assumindo a necessidade de reorganizar os processos de acordo com as recomendações do Alto Comissário da Auditoria e do Alto Comissário contra a Corrupção.

 

 

Terrenos para habitação

A habitação foi o tema que mais críticas suscitou e no qual Chui Sai On mais falhas reconheceu, referindo mais do que uma vez ser essa a sua “prioridade máxima”. Os dados estatísticos mostram que uma família da classe média gasta hoje em torno de “40 por cento” do rendimento familiar na prestação ou renda da casa. O número, apresentado pelo próprio Chui Sai On, pode “em certos casos chegar aos 60 por cento”, admitiu o chefe do Executivo, recusando contudo intervenção direta no mercado, por exemplo através dos tetos de renda. A única solução ao dispor do Governo, defende Chui Sai On, passa pela construção de mais habitação pública e social, cerca de 40 mil novos fogos, promete o governo, estratégia que levou várias vezes Chui Sai On a citar a importância dessa “prioridade” e “os esforços” nessa prioridade conduzida pelo secretário com o pelouro das Obras Públicas, Raimundo do Rosário. Nesse contexto, o chefe do Executivo assumiu como meritória a polémica Lei de Terras que conduz à “recuperação dos terrenos” por caducidade da concessão, permitindo com isso “reservar” alguns desses espaços para a construção de habitação a custo controlado. Apesar da forte contestação levantada pelos proprietários e da proliferação de processos em tribunal, já “foram proferidos 38 despachos de declaração de caducidade das concessões de terrenos, que envolvem uma área que ultrapassa 400 mil metros quadrados”, o equivalente a 40 campos de futebol.

 

Em intervenções diferentes, vários deputados criticaram a “exiguidade” e a ”má qualidade” da habitação pública, o “excesso de burocracia” e as dificuldades de acesso a essas casas, tendo Chui Sai On respondido com os “esforços” no sentido ser melhor cumprida essa estratégia.

 

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